​OS COMPONENTES DO TRAUMA



Existem quatro componentes do trauma que sempre estarão presentes em algum grau em qualquer pessoa traumatizada:

  • Hiperactivação;
  • Constrição;
  • Dissociação;
  • Congelamento (imobilidade), associado à sensação de impotência.​

juntos, esses componentes formam o Núcleo da Reacção Traumática. Eles são os primeiros a aparecer quando ocorre um facto traumático. Quando aparecem juntos durante um período prolongado de tempo, são uma indicação quase certa de que foi experienciado um facto que deixou um resíduo traumático não resolvido. Todos os outros sintomas se desenvolvem a partir desses quatro componentes, caso a energia defensiva que foi mobilizada para responder a um acontecimento traumático não tenha sido descarregada nem integrada num período de alguns dias, semanas ou meses após a experiência.

Hiperactivação

A maioria das pessoas experiencia sintomas como aumento dos batimentos cardíacos, respiração acelerada, dificuldade para dormir, tensão, tremores musculares, agitação mental, ou talvez um ataque de ansiedade em momentos de conflito ou de stress. Esses sinais normalmente são causados por alguma forma de hiperativação, embora isso nem sempre seja indicativo de sintomas traumáticos. Se a hiperativação, a constrição, a dissociação e um senso de impotência formam o núcleo da reacção traumática, então a hiperativação é a semente desse núcleo. Quando a situação é suficientemente séria para ameaçar a própria sobrevivência do organismo, a quantidade de energia mobilizada será muito maior do que a mobilizada em qualquer outra situação de nossa vida. Infelizmente, mesmo que saibamos que precisamos descarregar a energia activada, nem sempre é fácil fazê-lo. A hiperativação não pode ser controlada voluntariamente, como acontece também com muitos processos instintivos.

Constrição

Em termos corporais, a constrição é um fenómeno sistémico. Ela domina a nossa experiencia inicial de ameaça, afectando essencialmente todas as funções e partes do corpo.
Quando respondemos a uma situação que ameaça a vida, a hiperativação é inicialmente acompanhada pela constrição no corpo e nas percepções. O sistema nervoso age para assegurar que todos os esforços estejam concentrados na ameaça, do melhor modo possível. A constrição altera a respiração, o tônus muscular e a postura da pessoa. Os vasos sanguíneos na pele, nas extremidades e nas vísceras contraem-se de modo que haja mais sangue disponível para os músculos que estão tencionados e preparados para assumir uma acção defensiva. A percepção consciente do ambiente também se contrai para que toda a atenção seja dirigida à ameaça, tornando-se também numa forma de hipervigilância.
A hiperativação e a constrição cooperam para realizar tarefas que nunca conseguiriam executar em condições normais. Numa situação de sobrecarga e inactividade num estado hiperativo e constrito, parte da energia não-resolvida seria canalizada para uma hiperativação contínua. O resto seria usado para manter a constrição e uma multiplicidade de sintomas traumáticos mais complexos, mas organizados de modo similar: por exemplo, hipervigilância crónica, ataques de ansiedade ou de pânico, ou imagens invasivas (flashbacks, visualizações aterrorizantes). Quando a constrição não consegue focalizar suficientemente a energia do organismo para defender-se, o sistema nervoso evoca outros mecanismos para conter a hiperativação, como o congelamento e a dissociação. A constrição, a dissociação e o congelamento formam o conjunto de respostas que o sistema nervoso usa para lidar com o cenário no qual necessita defender-se de algo, mas não tem a capacidade de o fazer.

Dissociação

“Eu não tenho medo de morrer. Eu apenas não quero estar lá quando isso acontecer.”
Woody Allen

Com esta frase humorística, Woody Allen dá uma descrição bastante precisa do papel desempenhado pela dissociação – primeiro ela protege do impacto da activação crescente e, se existir algum acontecimento que ameace a vida, a dissociação protege da dor da morte.
Na sua forma suave, ela pode manifestar-se como uma espécie de devaneio e, no lado extremo do espectro, pode desenvolver-se a chamada síndrome de múltipla personalidade. A dissociação quase sempre inclui distorções de tempo e de percepção, pois é uma quebra na continuidade da sensopercepção de uma pessoa. No trauma, a dissociação parece ser o meio predilecto de capacitar as experiências que estão além da possibilidade de serem suportadas no momento em que acontecem. Pessoas que foram repetidamente traumatizadas quando eram crianças pequenas, com frequência adoptam a dissociação como modo de estar predilecto na vida. Elas dissociam fácil e habitualmente sem ter consciência disso. Mesmo as pessoas que habitualmente não dissociam, irão dissociar quando activadas ou quando começarem a ter acesso a imagens ou sensações traumáticas desconfortáveis. Nesses dois casos, a dissociação tem um papel importante para ajudar a manter a energia da hiperativação não descarregada desconectada da plenitude da experiência. Ao mesmo tempo, a dissociação interrompe a continuidade da sensopercepção e, assim, impede que as pessoas traumatizadas trabalhem efectivamente na resolução dos seus sintomas traumáticos. A questão não é eliminar a dissociação, mas aumentar a própria consciência dela.
O modo como a dissociação ocorre irá influenciar o modo como os sintomas mais complexos se desenvolvem. Além disso, parece haver evidências de que o uso da dissociação como uma resposta ao trauma é influenciado tanto pela genética quanto pela estrutura da personalidade.
Os devaneios e o esquecimento estão entre os sintomas mais óbvios que envolvem a dissociação. Entretanto, há outros sintomas que são mais difíceis de reconhecer como originários da dissociação. Entre eles estão os seguintes:

  • Negação – Sendo, normalmente uma forma de dissociação de baixo nível de energia, trata-se da desconexão que ocorre entre a pessoa e a memória, ou os sentimentos, sobre um acontecimento específico (ou uma série de acontecimentos). Pode ser negado que um facto aconteceu ou pode-se agir como se ele não tivesse importância. Se tiver origem numa situação dolorosa demais para ser reconhecida, a negação pode dar lugar ao medo, à raiva, à tristeza ou à vergonha, permitindo que esses sentimentos sejam novamente integrados e que a energia presa pela negação seja liberada. Entretanto, a negação pode tornar-se crónica.

  • Indisposições físicas – Frequentemente resultam da dissociação parcial ou fragmentada, na qual uma parte do corpo está fora de contacto com as outras partes. Por exemplo, uma desconexão entre a cabeça e o resto do corpo pode causar dores de cabeça. Sintomas gastrointestinais (por exemplo, síndrome de irritação intestinal), problemas constantes nas costas e dor crónica podem resultar de dissociação parcial combinada com constrição

Impotência

A impotência está intimamente relacionada com a resposta biológica, primitiva, universal a uma ameaça aterrorizante – a resposta do congelamento. Se pudéssemos exemplificar a hiperativação como o acelerador do sistema nervoso, então um senso de impotência esmagadora é o seu freio. Num automóvel, o acelerador e o freio são projectados para funcionar em momentos diferentes. Mas, na reacção traumática, o freio e o acelerador funcionam juntos. O sistema nervoso só reconhece que a ameaça acabou quando a energia mobilizada é liberada. Assim, ele continuará mobilizando energia indefinidamente até que a descarga ocorra. Ao mesmo tempo, o sistema nervoso reconhece que a quantidade de energia no sistema é superior àquela que pode ser suportada pelo organismo e, aplica um freio tão poderoso que todo o organismo pára imediatamente. Com o organismo completamente imobilizado, a tremenda energia no sistema nervoso é mantida presa.

Numa ameaça aterrorizante a sensação de estar completamente imobilizado e impotente não é uma percepção, crença ou uma ilusão da imaginação. Ela é real – o corpo não pode mexer-se e existe uma sensação profunda de paralisia, em que a pessoa não pode gritar, mexer-se ou sentir. Mais tarde, quando a ameaça acaba, os efeitos da impotência e da imobilização intensas irão desaparecer gradualmente, mas não por completo. Um eco dessa sensação de estar congelado permanece posteriormente com o traumatizado. A impotência é um reflexo claro dos processos fisiológicos que ocorrem no corpo, do mesmo modo que a hiperactivação e a constrição. Quando o nosso sistema nervoso passa para um estado activado em resposta a um perigo e, não nos podemos defender nem fugir, a próxima estratégia empregada é a imobilização. Quase todas as criaturas vivas têm essa resposta primitiva gravada em seu reportório de estratégias defensivas. ​


​SINTOMAS DO TRAUMA


A hiperativação, a constrição, a impotência e a dissociação são todas respostas normais à ameaça, mas nem sempre elas terminam como sintomas traumáticos. Os sintomas só se desenvolvem quando elas são crónicas e habituais. Ao se tornarem permanentes, essas reacções ao stress formam a base e o combustível para o desenvolvimento de sintomas subsequentes. Depois de alguns meses, esses sintomas do núcleo da reacção traumática vão começar a incorporar características mentais e psicológicas à sua dinâmica, até que finalmente acabam por atingir todos os aspectos da vida da pessoa que sofre de trauma.


O sistema nervoso compensa o facto de estar num estado de activação auto perpetuada desenvolvendo uma série de adaptações que finalmente aglutina e organiza a energia em “sintomas”. Essas adaptações funcionam como uma válvula de segurança para o sistema nervoso. Os primeiros sintomas do trauma normalmente aparecem logo depois do facto que os causou. Outros desenvolvem-se com o passar do tempo. Os sintomas do trauma são fenómenos energéticos que ajudam o organismo, ao lhe proporcionar um modo organizado para administrar e aglutinar a tremenda energia contida tanto na resposta original à ameaça, quanto na resposta auto perpetuada.
Fazer uma lista completa de todos os sintomas de trauma conhecidos seria uma tarefa impossível, por causa da singularidade da experiência de cada indivíduo. Contudo, existem sintomas que são uma indicação de trauma porque são comuns à maioria das pessoas traumatizadas. De modo geral, alguns sintomas costumam aparecer primeiro, dos quais já destacámos o chamado Núcleo da Reacção Traumática: Hiperactivação, Constrição, Dissociação (inclusive Negação) e Sentimentos de Impotência.
Outros sintomas iniciais que começam a aparecer ao mesmo tempo ou logo depois dos mencionados são:

  • Vigilância exagerada (estar “em prontidão” o tempo todo);
  • Imagens invasivas ou flashbacks;
  • Sensibilidade extrema à luz e ao som;
  • Hiperactividade;
  • Respostas emocionais e de susto exageradas;
  • Pesadelos e terrores nocturnos;
  • Mudanças repentinas de humor: por exemplo, reacções de fúria ou acessos de raiva, vergonha;
  • Diminuição da capacidade de lidar com o stress (fica stressado facilmente e com frequência); e
  • Dificuldade de dormir.

Vários desses sintomas podem aparecer também na fase de desenvolvimento seguinte, bem como na última. A lista não tem propósito de diagnóstico; é um guia para ajudar a sentir como os sintomas do trauma se comportam. Os sintomas que ocorrem nesse próximo estágio de desenvolvimento incluem, para além daqueles anteriormente assinalados com b e c, os seguintes:​

  • Ataques de pânico, ansiedades e fobias;
  • Situações de “branco” mental ou “devaneios”;
  • Comportamentos de aversão (evitar determinadas circunstâncias);
  • Atracção por situações perigosas;
  • Choro frequente;
  • Actividade sexual exagerada ou diminuída;
  • Amnésia e esquecimento;
  • Incapacidade de amar, cuidar, ou ligar-se a outras pessoas;
  • Medo de morrer, de ficar louco, ou de ter uma vida curta;

O grupo final de sintomas inclui aqueles que geralmente demoram mais para se desenvolver, na maioria dos caso precedidos por alguns dos sintomas anteriores. Não uma regra fixa que determine qual o sintoma o organismo poderá escolher ou quando irá fazê-lo e nenhuma das listas é completa. Os sintomas que em geral se desenvolvem por último, para além daqueles anteriormente assinalados com c e e, serão os seguinte:

  • Timidez excessiva;
  • ​Respostas emocionais diminuídas ou silenciadas;
  • Incapacidade de se comprometer;
  • Fadiga crónica ou energia física muito baixa;
  • Problemas do sistema imunológico e alguns problemas endócrinos, tais como disfunção da tiróide;
  • Doenças psicossomáticas, especialmente dores de cabeça, problemas no pescoço e nas costas, asma, problemas digestivos, espasmos do         cólon e síndrome pré-menstrual grave;
  • Depressão, sentimentos de catástrofe iminente;
  • Sensação de desligamento, alienação e isolamento – “morto-vivo”
  • Diminuição do interesse pela vida;

Naturalmente que nem todas as pessoas que têm um ou mais desses sintomas foram traumatizadas, podendo assinalar no entanto, que aqueles produzidos pelo trauma de período prolongado. Os sintomas do trauma podem ser estáveis (sempre presentes), instáveis (aparecem e desaparecem), ou podem ocultar-se por décadas. Em geral, esses sintomas não aparecem de modo isolado, mas em grupo. Essas “síndromes” frequentemente ficam cada vez mais complexas com o passar do tempo, tornando-se cada vez menos ligadas à experiência original do trauma.

Uma das características mais insidiosas dos sintomas do trauma é que eles estão presos ao ciclo original de um modo que também os auto perpetua – daí o trauma ser resistente à maioria das formas de tratamento. No caso de algumas pessoas, esse ciclo auto perpetu ante mantém os sintomas estáveis. Outras pessoas desenvolvem um ou mais comportamentos ou predisposições adicionais – que também podem ser considerados sintomas de trauma – e que auxiliam o sistema nervoso a manter a situação sob controlo:​

  • Comportamentos de aversão – Os comportamentos de aversão são uma forma de sintoma de trauma na qual se limitam os estilos de vida a situações que não sejam potencialmente activadoras. Gradualmente, a vida irá ficar cada vez mais constrita, quando se tenta evitar circunstâncias que poderiam alterar o equilíbrio usual da energia. Se andarmos na ponta dos pés ao redor da activação, o nosso sistema nervoso irá criar as suas próprias activações. Quando isso ocorre, não será possível recuperar dos impactos das frustrações quotidianas tão facilmente quanto seria possível se o sistema nervoso estivesse livre para funcionar plena e normalmente.
  • Medo das emoções negativas – Na sua forma pura, a energia gerada pelo sistema nervoso para a protecção do perigo é vital. Ela traz uma sensação de vida e de liberdade. Quando essa energia é bloqueada na tentativa de proteger, uma parcela significativa dela é recanalizada para medo, raiva, ódio e vergonha, como parte do grupo de sintomas que se desenvolvem para organizar a energia não descarregada. Essas emoções ditas “negativas” tornam-se intimamente associadas à própria energia vital, bem como com outros sintomas que formam o conjunto dos efeitos traumáticos.
  • Quando existe o trauma, a associação entre a energia vital e as emoções negativas é tão íntima que não se consegue distingui-las. O que é necessário é exactamente a descarga, mas quando ela começa a ocorrer o efeito pode ser aterrorizante e intolerável, em parte porque a energia liberada é percebida como negativa. Por causa desse medo normalmente suprimimos a energia ou, na melhor das hipóteses, a descarregamos de modo incompleto.
  • Uso de medicamentos e abuso de drogas – Outro meio pelo qual as pessoas traumatizadas podem tentar estabilizar ou suprimir os sintomas é pela terapia com medicamentos. Com frequência é tentada essa solução por recomendação médica, ou por auto medicação (abuso de drogas).

A REALIDADE DA PESSOA TRAUMATIZADA

Hipervigilância

A hipervigilância é uma manifestação direta e imediata da hiperativação, que é a resposta inicial à ameaça. O seu efeito sobre a resposta de orientação é especialmente debilitante, pois coloca o indivíduo traumatizado numa experiência contínua de medo, paralisia e vitimização. A hipervigilância transforma-se numa das maneiras de administrar o excesso de energia mal sucedida contra a ameaça original. Parte dessa energia pode ser canalizada para os músculos da cabeça, do pescoço e dos olhos numa busca obsessiva do perigo. Quando isso se combina com a ativação interna que ainda está presente, o nosso cérebro racional torna-se irracional. Ele começa a tentar identificar fontes externas de perigo.
A tendência à hipervigilância/defesa fica mais forte à medida que a resposta de congelamento se torna mais firme. As pessoas hipervigilantes estão presas num estado de alerta intenso, constante e, podem de facto assumir uma aparência levemente furtiva ou temerosa, com os olhos bem abertos, por causa da sua atenção constante. Procura-se compulsivamente a ameaça que não pode ser encontrada, mesmo quando uma ameaça real está bem à nossa frente. O sistema nervoso pode ficar tão activado que ele não consegue desligar-se rapidamente. Em consequência disso os ritmos fisiológicos e comportamentais (por exemplo, o sono) podem ser perturbados.
Uma qualidade inerente à hipervigilância é a ausência das respostas normais de orientação. Basicamente, irá diminuir a capacidade geral das pessoas de funcionar de maneira eficaz em qualquer situação, não apenas naquelas que exigem uma defesa ativa. Parte da função da resposta de orientação é identificar as novas informações à medida que nos consciencializamos delas. Se essa função estiver enfraquecida, qualquer quantidade de novas informações levará à confusão e sobrecarga. Em vez de serem assimiladas e ficar disponíveis para uso futuro, as novas informações tendem a ficar acumuladas. Elas ficam desorganizadas e inúteis. Informações importantes são esquecidas ou extraviadas. A mente torna-se, então, incapaz de organizar os detalhes de um modo que faça sentido e qualquer outro problema piora a situação, fazendo com que circunstâncias comuns possam transformar-se num pesadelo de frustração, raiva e ansiedade.

Impotência Crónica

A impotência crónica ocorre quando as respostas de congelamento, de orientação e de defesa se tornam tão fixas e enfraquecidas que se movem primariamente por caminhos predeterminados e não funcionais. À medida que a impotência se torna uma parte inextrincável de suas vidas, as pessoas têm dificuldade em se comportar de um modo que não seja impotente. Quando a fisiologia responde a um facto ou estímulo com a ativação, não existe uma resposta de orientação e de defesa como um ser humano saudável. Em vez disso, o indivíduo vai diretamente da ativação para a imobilidade e a impotência, passando por cima de outras emoções e também da sequência normal de respostas, tornando-se vítima e, esperando ser vitimizado repetidamente.
Por não ter acesso às respostas normais de orientação, haverá dificuldade de fugir perante uma nova ameaça, mesmo que a situação dê essa oportunidade. É possível que a mesma nem se torne visível. A ativação está tão fortemente associada à imobilidade que as duas não podem ser separadas – a pessoa sente-se automaticamente impotente e imobilizada sempre que se sentir ativada. Este cenário normalmente ocorre em relacionamentos obsessivos. Em vez de respostas normais de orientação e de defesa (e da vivacidade e do prazer que vem delas), experiencia-se ansiedade, profunda impotência, vergonha, entorpecimento, depressão e despersonalização.

Associação Traumática

Na associação traumática, um estímulo está fortemente ligado a uma resposta específica e, os dois juntos superam os comportamentos normais de orientação.
Um exemplo comum de associação traumática acontece quando pessoas traumatizadas entram em pânico quando ficam sexualmente excitadas. A excitação sexual leva ao pânico, à imobilidade e à impotência, em vez de levar a um prazer intenso. Isso pode fazer com que elas acreditem que foram sexualmente abusadas quando, na verdade, as suas reacções são causadas pela associação traumática.

Ansiedade Traumática

O estado ativado que não termina, a sensação contínua de perigo, a busca incessante desse perigo, a incapacidade de encontrá-lo, a dissociação, o sentimento de impotência – juntos, esses elementos formam a ansiedade traumática. Quando não é possível dar resposta à imobilidade, a mensagem biológica resultante è: “A vida está por um triz”. Essa sensação de morte iminente é intensificada pelos sentimentos de raiva, terror, pânico e impotência. Todos esses fatores combinam-se para produzir um fenómeno conhecido como ansiedade traumática. Essa ansiedade funciona como pano de fundo de qualquer experiência na vida da pessoa gravemente traumatizada. A ansiedade traumática aparece como nervosismo, preocupação, inquietação e hipersensibilidade aparente. A pessoa traumatizada frequentemente experiencia pânico, terror e, tem reações muito exageradas e dramáticas diante de acontecimentos triviais.

Sintomas Psicossomáticos

Os sintomas traumáticos não afetam apenas os nossos estados mentais e emocionais, mas também a nossa saúde física. O trauma pode fazer com que uma pessoa fique cega, muda ou surda; pode causar paralisia nas pernas, nos braços ou em ambos; pode provocar dores crónicas no pescoço e nas costas, síndrome da fadiga crónica, bronquite, asma, problemas gastrointestinais, tensão pré-menstrual grave, enxaquecas e toda uma infinidade de condições psicossomáticas. Qualquer sistema físico capaz de conter a ativação não descarregada, provocada pelo trauma, torna-se uma presa fácil. A energia contida irá usar qualquer aspeto de nossa fisiologia que esteja disponível.

Negação

Muitas pessoas traumatizadas vivem num estado de resignação diante de seus sintomas, sem nunca tentar encontrar um caminho de volta a uma vida normal e saudável. A negação e a amnésia têm um papel importante pois reforçam esse estado resignado. Embora possamos sentir-nos tentados a julgar ou a criticar as pessoas que negam terem sido traumatizadas (afirmando que não aconteceu nada realmente), é importante lembrar que isso é (em si mesmo) um sintoma. A negação e a amnésia não são escolhas voluntárias feitas por elas; não indicam fraqueza de carácter, disfunção de personalidade ou desonestidade deliberada, fazendo parte dum padrão já da sua fisiologia. A negação ajuda a preservar a capacidade de funcionar e de sobreviver no momento de um facto traumático. Entretanto, quando se torna crónica, a negação transforma-se num sintoma não-resolvido do trauma.
Para reverter os efeitos da negação ou da amnésia é necessária muita coragem. A quantidade de energia que é liberada quando isso acontece pode ser enorme e não deve ser minimizada nem subestimada. Esse é um momento de muita importância para a pessoa traumatizada.

Vitimização

Todos os humanos que são repetidamente sobrecarregados por um trauma ficam identificados com estados de ansiedade e de impotência. Além disso, trazem essa impotência para muitas outras situações que são percebidas como ameaçadoras. Eles continuam por diversos modos a provar essa vitimização a si mesmos e aos outros. Submetem-se aos sentimentos de impotência, mesmo em situações que poderiam dominar. Algumas vezes (no que é conhecido como uma reação contrafóbica), podem tentar provar o contrário daquilo que não gostam em si próprios, provocando deliberadamente o perigo. De qualquer forma, este é não mais do que um comportamento de vítima que provoca mais vitimização.
O impacto do trauma pode não ser de todo consciente, mas por certo ele é totalmente ativo. De um modo insidioso, o trauma contribui para os motivos e os impulsos do comportamento, Isso significa que o homem que foi espancado quando criança poderá sentir-se impelido a espancar quando for adulto. A energia por trás dessa necessidade de bater não é senão a energia contida em seus sintomas traumáticos. Essa compulsão inconsciente só pode ser conquistada por grandes atos de vontade até que a energia seja descarregada.
O fenómeno que dirige a repetição dos factos traumáticos passados é chamado de reatuação. Ele é o sintoma que domina a última volta da espiral descendente no desenvolvimento dos sintomas do trauma. Poderemos classificar no entanto, a reatuação como sendo o sintoma mais compulsivo, misterioso e destrutivo para nós como indivíduos, como sociedade e como comunidade mundial.